Como funciona
Uma semana, um tema. Cada semana tem a mesma forma, e cabe em 2 horas:
- Ler (15 min): o que está nesta app, e nada mais.
- Ver (15 a 30 min): um vídeo de referência, com uma pergunta concreta.
- Praticar (40 a 60 min): exercícios curtos, repartidos por 2 ou 3 dias.
- Gravar (15 min): o mesmo minuto de sempre, mais o exercício da semana. Mandas-me a gravação e eu devolvo-te números e uma correção.
São três fases, sem nenhuma semana parada:
- Fase 1, a técnica (semanas 1 a 12, de 9 de novembro a 31 de janeiro): voz, corpo, mãos, olhar, estrutura. Acaba em Estocolmo, onde vais ver oradores ao vivo com outros olhos.
- Fase 2, o talk (semanas 13 a 28, de 1 de fevereiro a 23 de maio): constróis os 45 minutos, ensaias para públicos cada vez mais exigentes e fazes o teste final para a equipa do Revolution na semana 26, três semanas antes, com tempo para corrigir. Cada semana abre com uns minutos de aquecimento técnico, para a fase 1 não se perder.
- Fase 3, Madrid (semana 29).
As 10 regras que valem o livro todo
- Uma frase-guia. O talk inteiro cabe numa frase de 15 palavras. Tudo o que não a serve, sai. (Chris Anderson chama-lhe throughline.)
- Abre com uma promessa, não com uma piada. Diz logo o que a sala vai saber fazer no fim que não sabia no início, e no fim mostra que cumpriste. (Patrick Winston, MIT.)
- Vai e vem entre o que é e o que pode ser. A realidade do dono de box hoje, e o ginásio que ele pode ter. Esse contraste é o que prende. (Nancy Duarte.)
- Histórias e números concretos, não conceitos. «O meu churn em setembro» vale mais do que «a retenção é importante». (Chip e Dan Heath, Made to Stick.)
- Repete a ideia principal três vezes, por palavras diferentes. Em qualquer momento há uma parte da sala distraída. (Winston.)
- A pausa é a tua melhor arma. Antes de um número, depois de uma pergunta, no fim de cada parte. Dois segundos parecem uma eternidade a ti e normais à sala.
- Mãos à vista, a ilustrar. Os talks TED mais vistos tinham quase o dobro dos gestos dos menos vistos. Gesto que mostra (tamanho, lista, antes e depois), não gesto nervoso.
- Um olhar por ideia. Escolhe uma pessoa, diz-lhe a frase inteira, passa a outra. Nada de varrer a sala como um farol.
- O slide não repete o que dizes. Texto igual ao que se ouve atrapalha a sala. Uma imagem, um número, ou três palavras.
- O nervosismo é energia. Não tentes acalmar: diz «estou entusiasmado». Nos estudos de Alison Wood Brooks, quem o fez foi avaliado como mais convincente e confiante.
Mitos que podes ignorar
- «93% da comunicação é não verbal». É uma leitura errada de um estudo sobre emoções em palavras soltas. O conteúdo conta, e muito.
- «2 minutos de pose de super-herói mudam as hormonas». Os estudos maiores não o confirmaram. A postura aberta pode fazer-te sentir mais confiante, e isso basta: usa-a nos bastidores, sem esperar milagres.
- «Começa com uma piada». Num público internacional o humor traduz-se mal. Começa com a tua pergunta de mão no ar, que é bem melhor.
45 minutos é uma maratona
Um talk TED tem 18 minutos; o teu tem 45, mais 10 de perguntas. Se nada mudar, a sala desliga ao fim de uns 10 minutos. Por isso:
- Muda de modo a cada 8 a 10 minutos: uma pergunta à sala, uma história, a demo, um número grande no ecrã, um momento de mãos no ar.
- Um mapa à vista: diz no início as 3 partes e, ao passar de uma para outra, diz onde estás («That was the problem. Now, the system.»).
- Resumo antes das perguntas: fecha os 45 minutos com a frase-guia e a promessa cumprida, e só depois abres as perguntas. Guarda 30 segundos para uma última frase depois da última pergunta: a última palavra é tua.
Falar em inglês
O público de Madrid é internacional e, como nos emails ao Henrik, o talk deve ser em inglês. Isso muda pouco, mas muda:
- Mais devagar do que te apetece, sobretudo no primeiro minuto, para a sala se habituar ao teu sotaque. Alvo: 120 a 140 palavras por minuto.
- O sotaque não é problema, a pressa é. Ninguém quer que soes americano; quer perceber-te.
- Frases curtas, sem expressões idiomáticas nem siglas por explicar (metade da sala também não é nativa).
- Abertura e fecho decorados palavra a palavra, em voz alta, até saírem sozinhos. O meio fica em tópicos.
Cronómetro do minuto
Para o exercício de 1 minuto e para os improvisos. Toca ao fim de 60 segundos.
Contar ritmo e palavras de enchimento
Cola a transcrição de uma gravação (o iPhone, o Plaud ou o YouTube dão-ta) e a duração. A conta fica feita aqui, sem sair do telemóvel.
Alvos: 120 a 150 palavras por minuto (em inglês, 120 a 140); menos de 2 palavras de enchimento por minuto. A transcrição automática às vezes apaga os «ãh», por isso confirma de ouvido.
A tua evolução
Preenche no fim de cada semana (o registo fica neste telemóvel ou PC).
| Sem. | Pal./min | Ench./min | Nota (1 a 10) |
|---|
O que vestir
- Um degrau acima da sala. No Coaches Congress a sala veste roupa de treino; tu vais de calças escuras, ténis limpos ou sapatilhas sóbrias e uma peça de cima lisa e bem cortada. Pareces dono de box, não consultor.
- Cores lisas e escuras. Preto ou azul-escuro funcionam em quase todos os palcos. Nada de riscas finas, quadradinhos ou logótipos grandes, que «tremem» nas câmaras e nos ecrãs.
- O polo preto do Revolution é uma boa hipótese, como nos vídeos para o Henrik. Confirma a cor do fundo do palco: preto sobre fundo preto desaparece.
- Pensa no microfone de cabeça. Passa por trás das orelhas e o emissor costuma ir preso à cintura: leva cinto ou calças com cós firme, e nada de capuz ou gola alta que roce no fio. Durante o talk, não lhe mexes.
- Testa a roupa num ensaio gravado antes de maio. Se te puxas a camisola ou mexes no relógio, troca.
- O joelho manda. Calçado em que aguentes uma hora de pé, e um banco alto à mão se precisares.
Expressão
- Sorri nos primeiros 10 segundos e no fim. A sala decide depressa se gosta de ti.
- Cara séria nos números e nos problemas, aberta nas soluções. A expressão acompanha a história.
- Sobrancelhas vivas. Em palco, a cara parece mais parada do que é; o que te parece exagerado em casa sai normal lá.
Corpo e palco
- Base firme: pés à largura dos ombros, peso nos dois pés, sem balançar.
- Anda com intenção: mudas de sítio quando mudas de ideia, e paras para dizer a frase importante. Andar enquanto falas de forma contínua cansa a sala.
- Mãos na caixa entre a cintura e os ombros. Em repouso, juntas à altura do umbigo, nunca nos bolsos, atrás das costas ou cruzadas.
- Nunca de costas para a sala para ler o ecrã de projeção. Há ecrã de retorno à tua frente: olha para ele só nas mudanças de slide, um relance, e volta às pessoas.
- O microfone de cabeça liberta as mãos e mantém o volume certo: não precisas de falar mais alto, só de articular.
A véspera
- Ver a sala e o palco, se possível. Pisar o sítio onde vais estar.
- Testar a demo no wifi do evento e ter o vídeo de reserva no portátil e numa pen.
- Dizer a abertura e o fecho em voz alta duas vezes, e mais nada. Nada de reescrever.
- Dormir. Vale mais do que o último ensaio.
Uma hora antes
- Comer leve e beber água (à temperatura ambiente; nada de leite nem gás).
- Aquecer a voz 5 minutos: zumbido de lábios, «mmm» a subir e a descer, trava-línguas em inglês.
- Falar com 2 ou 3 pessoas da plateia antes de começar: no palco já tens caras amigas.
- Telemóvel em modo de avião, exceto o da demo.
Dois minutos antes
- Postura aberta, ombros para trás, três respirações lentas com a expiração mais longa do que a inspiração.
- Dizer, baixinho: «I'm excited.»
- Entrar, parar, olhar para a sala, contar até dois, e só então a primeira frase.
Se alguma coisa correr mal
- Branco: pausa, um gole de água, repete a última frase que disseste. Ninguém dá por nada.
- A demo falha: «Live demos, right?», sorriso, e passas ao vídeo. Diz-se uma vez e segue-se.
- Pergunta difícil: agradece, repete a pergunta para a sala, responde curto (30 segundos). Se não souberes, diz que não sabes e que respondes depois.
- Ninguém pergunta: tens uma pergunta tua pronta («People often ask me...»), e a sala solta-se.
Livros (por ordem de utilidade para ti)
- Chris Anderson, TED Talks: The Official TED Guide to Public Speaking (2016). A frase-guia e a construção de um talk. Se leres só um, é este.
- Nancy Duarte, Resonate (2010). O vaivém entre o que é e o que pode ser.
- Chip e Dan Heath, Made to Stick (2007). Simples, inesperado, concreto, credível, emocional, histórias.
- Carmine Gallo, Talk Like TED (2014). Leitura rápida, exemplos concretos.
- Garr Reynolds, Presentation Zen. Para a fase dos slides, em março.
Vídeos e estudos
- Patrick Winston, How to Speak (MIT OpenCourseWare, 2018).
- Alison Wood Brooks (2014), «Get Excited: Reappraising Pre-Performance Anxiety as Excitement», Journal of Experimental Psychology: General; resumo da APA.
- Vanessa Van Edwards, análise dos gestos nos talks TED (correlação, não prova).
- Ranehill e outros (2015), a repetição do power posing, Psychological Science.
- Toastmasters, Cutting Out Filler Words.
- Yue, Bjork e Bjork (2013), texto no slide igual ao que se diz.
- Vanderbilt, Be Proud of Your Accent (falar numa língua que não é a tua).
Os ritmos em palavras por minuto são referências práticas de treinadores de oratória, não valores científicos.